A recente decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do Brasil de revogar a futura obrigatoriedade da adoção das normas IFRS S1 e S2 sobre divulgação de informações climáticas para empresas de capital aberto gerou significativa discussão no mercado brasileiro.
Por meio da Resolução 244 da Comissão de Valoração Mútua (CVM), publicada em maio de 2026, as divulgações financeiras relacionadas à sustentabilidade deixaram de ser obrigatórias e passaram a adotar uma abordagem voluntária de “cumprir ou explicar”. Essa mudança afeta o ritmo regulatório no Brasil, mas pode não alterar a direção do mercado global.
E essa distinção é importante.
Nos últimos anos, as normas IFRS S1 e S2, desenvolvidas pelo Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade (ISSB), tornaram-se fundamentais para a agenda internacional de transparência corporativa. O objetivo dessas normas nunca foi simplesmente expandir os relatórios ESG.
O objetivo era integrar a sustentabilidade à lógica financeira corporativa, permitindo que investidores, bancos e mercados compreendessem melhor os riscos climáticos, os impactos financeiros e as estratégias de transição associadas às atividades empresariais. Na prática, o carbono não é mais tratado apenas como uma variável ambiental.
Ele está sendo cada vez mais tratado como uma variável econômica. E talvez seja exatamente por isso que a decisão da CVM gerou tanta discussão.
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A pressão global por transparência climática continua a crescer.
Embora a CVM tenha argumentado que a mudança proporciona às empresas maior flexibilidade para avaliar os custos e benefícios da adoção de divulgações climáticas, a pressão econômica internacional por transparência climática continua a avançar em ritmo acelerado.
A União Europeia continua a expandir os requisitos estabelecidos no âmbito da Diretiva CSRD.
O Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM, na sigla em inglês) continua a incorporar as emissões como uma variável comercial.
Investidores institucionais continuam exigindo transparência em relação às mudanças climáticas.
Os bancos internacionais continuam a integrar os riscos ambientais nas análises de crédito e financiamento.
As cadeias de suprimentos globais exigem cada vez mais informações detalhadas sobre emissões, rastreabilidade e planos de descarbonização.
Em outras palavras, embora os requisitos regulatórios locais tenham se tornado mais flexíveis, a pressão econômica global continua a se intensificar.
E talvez as ações tomadas pelas próprias empresas brasileiras ajudem a demonstrar essa realidade com mais clareza.
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EMPRESAS LÍDERES ESTÃO OPTANDO POR CONTINUAR DIVULGANDO RELATÓRIOS
Apenas alguns dias após a publicação da nova resolução, empresas como a Vale e a Lojas Renner declararam publicamente que continuariam a publicar voluntariamente as divulgações IFRS S1 e S2.
Segundo reportagem da Reset, ambas as empresas, pioneiras na adoção dos padrões no Brasil, acreditam que essas divulgações contribuem para a transparência, a confiança e a qualidade das informações relacionadas à sustentabilidade.
Posteriormente, empresas como a B3 e a Natura também indicaram que pretendem manter os relatórios climáticos alinhados com os padrões internacionais.
Esse movimento pode revelar uma das transformações mais importantes que estão ocorrendo no estágio atual do mercado.
Empresas com maior exposição aos mercados internacionais já não discutem apenas obrigações regulatórias.
Eles estão discutindo acesso a capital, competitividade, reputação e confiança.
O carbono deixou de ser apenas uma variável ambiental. É uma variável econômica.
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A informação climática está se tornando parte do valor dos negócios.
O avanço da agenda climática global está produzindo uma transformação estrutural no funcionamento dos mercados.
Informações relacionadas a emissões, riscos climáticos, impactos ambientais e estratégias de transição estão influenciando cada vez mais:
- Avaliação
- Custo de capital
- Percepção de risco
- Acesso a financiamento
- Participação em cadeias de suprimentos globais
- Relações com investidores
Nesse contexto, a transparência climática está gradualmente evoluindo de uma obrigação regulatória para uma vantagem competitiva. E essa discussão está diretamente ligada à própria evolução do mercado de carbono.
Porque:
- Não existe mercado de carbono robusto sem dados robustos.
- Não existem créditos confiáveis sem rastreabilidade.
- Não existe integridade climática sem governança.
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O mercado de carbono depende da qualidade da informação.
À medida que os mercados de carbono regulamentados e voluntários amadurecem, a necessidade de estruturas de monitoramento, relatórios e verificação cada vez mais sofisticadas continua a crescer.
O próprio avanço do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) deverá acelerar a demanda por informações mais consistentes, auditáveis e comparáveis.
As discussões internacionais sobre carbono não se concentram mais apenas na quantidade de créditos disponíveis.
Elas estão cada vez mais focadas na qualidade dos ativos e na credibilidade das informações que os sustentam.
Esse movimento provavelmente beneficiará organizações que já estão desenvolvendo estruturas de governança climática mais robustas, inventários de emissões confiáveis, estratégias claras de descarbonização e mecanismos de rastreabilidade fidedignos.
As empresas podem deixar de divulgar informações por regulamentação. Mas isso não significa que deixarão de ser solicitadas a fornecer informações.
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O MERCADO CONTINUA A EXIGIR RESPONSABILIDADE CLIMÁTICA
Talvez haja aqui uma lição importante para o mercado brasileiro.
As empresas podem não ser mais obrigadas por regulamentação a divulgar informações climáticas. No entanto, é improvável que deixem de ser questionadas pelo mercado.
Isso ocorre porque o avanço da economia de baixo carbono não está sendo impulsionado apenas por regulamentações locais. Ele está sendo impulsionado por investidores globais, cadeias de suprimentos internacionais, financiamento climático, expectativas de reputação e a crescente integração entre as questões climáticas e o sistema financeiro.
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