Novos padrões e programas de certificação estão ampliando as opções para desenvolvedores e compradores e mostram que o mercado de carbono caminha para um ecossistema mais especializado, regional e diversificado.
Por muito tempo, a resposta para a pergunta sobre quem certifica créditos de carbono pareceu relativamente simples: Verra ou Gold Standard.
Não por acaso. Esses dois nomes ajudaram a construir a infraestrutura do mercado voluntário de carbono, estabelecendo metodologias, procedimentos de validação e verificação, registros e regras que permitiram transformar projetos de redução e remoção de emissões em ativos comercializáveis.
Mas essa realidade está mudando.
Nos últimos anos, novos padrões e programas de certificação passaram a ocupar espaço no mercado, muitos deles com propostas diferentes daquelas que tradicionalmente orientaram a certificação de créditos.
O movimento já não pode ser tratado como uma sucessão de iniciativas pequenas ou experimentais. Em setembro de 2026, o próprio Integrity Council for the Voluntary Carbon Market, ICVCM, lista entre os programas CCP-Eligible nomes como Isometric, Puro.earth, Cercarbono, Equitable Earth, Global Carbon Council, Rainbow, além de Verra e Gold Standard.
Isso revela uma transformação mais profunda.
O mercado de carbono está deixando de ser um mercado com poucos padrões dominantes e caminhando para um ecossistema com diferentes estruturas de certificação, cada uma buscando atender determinados tipos de ativos, tecnologias, geografias e necessidades.
E isso muda uma pergunta importante para quem desenvolve ou compra créditos.
A questão já não é apenas saber qual é a maior certificadora.
É entender qual padrão faz sentido para determinado projeto.
Isometric: tecnologia e especialização entram na certificação
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa nova geração é a Isometric.
Fundada no Reino Unido, a empresa entrou no mercado com uma proposta fortemente baseada em ciência, tecnologia e digitalização dos processos de certificação, com foco inicial em remoções de carbono.
A expansão da Isometric no Brasil tornou esse movimento particularmente visível.
Em abril de 2026, a empresa anunciou que a Mombak havia registrado seus projetos de reflorestamento na plataforma. Poucos meses depois, em julho, a Isometric anunciou seus primeiros certificados de remoção baseados em projetos de reflorestamento, com 21.771 certificados associados ao projeto de reflorestamento da Mombak na Amazônia brasileira.
O caso é significativo porque demonstra que a diversificação dos padrões não é apenas uma discussão institucional.
Ela já está alterando as decisões dos próprios desenvolvedores de projetos.
Ao mesmo tempo, a Isometric vem construindo metodologias específicas para diferentes tecnologias de remoção. O ICVCM já reconhece metodologias da empresa em categorias como biochar e diferentes formas de remoção e armazenamento de carbono.
A lógica é clara: quanto mais diversificadas forem as soluções climáticas, maior tende a ser a necessidade de estruturas de certificação capazes de compreender suas particularidades.
Puro.earth: quando a especialização se torna uma estratégia
Outro exemplo é a Puro.earth.
A plataforma construiu sua identidade em torno das remoções duráveis de carbono, com metodologias específicas para tecnologias como biochar e armazenamento geológico.
Seu desenvolvimento mostra que um padrão não precisa necessariamente tentar atender a todas as categorias de projetos existentes.
Pode fazer uma escolha estratégica de especialização.
O Brasil já faz parte dessa história.
A Puro.earth possui projetos brasileiros registrados e certificados, incluindo a unidade da NetZero em Lajinha, Minas Gerais, baseada em biochar. O projeto possui créditos emitidos sob a metodologia de biochar e certificados associados a uma durabilidade declarada superior a 100 anos.
A própria existência desses projetos demonstra que a diversificação dos padrões já está produzindo alternativas concretas para desenvolvedores brasileiros.
E a Puro.earth não está simplesmente ocupando um nicho informal. O programa recebeu, em dezembro de 2025, o status CCP-Eligible pelo ICVCM, aplicável à versão 4.2 de seu padrão.
Cercarbono: a dimensão regional também importa
A diversificação não acontece apenas pela entrada de empresas europeias ou norte-americanas.
A América Latina também desenvolveu seus próprios referenciais.
A Cercarbono, criada na Colômbia, é um exemplo relevante de padrão regional que ganhou espaço internacional e possui metodologias aplicáveis a diferentes atividades de mitigação.
Em agosto de 2026, o ICVCM reconheceu a Cercarbono como CCP-Eligible para projetos registrados sob a versão 4.5.2 ou posterior de seu protocolo. A decisão ampliou ainda mais o conjunto de programas reconhecidos dentro da arquitetura dos Core Carbon Principles.
O caso é importante porque evidencia uma tendência que pode ganhar ainda mais relevância à medida que os mercados de carbono se aproximam de estruturas reguladas e que diferentes países passam a estabelecer suas próprias regras.
A origem geográfica de um padrão pode importar.
Conhecer a realidade ambiental, regulatória e socioeconômica da região em que o projeto está inserido pode contribuir para desenvolver metodologias mais aderentes às características daquele mercado.
O que está realmente mudando?
A expansão de novos padrões não significa que Verra e Gold Standard tenham deixado de ser relevantes.
Muito pelo contrário.
Esses programas continuam entre as principais referências globais.
O que está mudando é a estrutura do mercado.
Durante uma primeira fase, a prioridade era criar regras comuns e estabelecer confiança suficiente para que o crédito de carbono pudesse existir como ativo de mercado.
Agora, à medida que novas tecnologias e modelos de conservação entram em cena, surge outro desafio: como certificar adequadamente coisas diferentes?
Uma tonelada associada à produção de biochar não apresenta exatamente os mesmos desafios metodológicos de uma tonelada associada à restauração de uma floresta.
Um projeto de remoção tecnológica não possui necessariamente as mesmas características de um projeto de conservação florestal.
Uma iniciativa latino-americana pode enfrentar questões fundiárias, ambientais e socioeconômicas diferentes de um projeto desenvolvido em outro continente.
É nesse ponto que a especialização começa a ganhar importância.
Mais padrões não significam necessariamente mais complexidade. Podem significar mais adequação.
A escolha do padrão passa a ser estratégica
Para o desenvolvedor de um projeto, a certificação deixou de ser apenas uma etapa administrativa.
Ela pode influenciar metodologia, custos, cronograma, requisitos de dados, monitoramento, auditoria, registro e, consequentemente, a própria estrutura econômica do projeto.
Para o comprador, a escolha também pode ser relevante.
O padrão utilizado ajuda a explicar como o crédito foi gerado, quais regras foram aplicadas, quais informações foram monitoradas e quais processos de validação e verificação foram utilizados.
Por isso, a expansão do ecossistema de certificação cria uma possibilidade importante:
escolher o padrão mais adequado ao ativo climático, em vez de simplesmente escolher o padrão mais conhecido.
É nesse espaço que novas alternativas podem encontrar seu lugar.
E é também nesse contexto que uma iniciativa brasileira como a LuxCS merece atenção.
LuxCS: uma alternativa construída a partir da realidade brasileira
A LuxCS representa uma proposta diferente dentro desse movimento.
Em vez de partir da ideia de criar uma estrutura genérica para qualquer tipo de projeto climático, a organização desenvolveu metodologias voltadas a determinadas realidades brasileiras.
Entre elas está a LCS003, Conservação de Florestas Nativas Brasileiras em Áreas Privadas.
Lançada em novembro de 2024 e atualmente em sua versão 2.0, a metodologia foi estruturada para projetos de conservação de florestas nativas privadas nos diferentes biomas brasileiros. Seu objetivo é estruturar projetos de remoção associados à conservação dessas florestas, promovendo a redução de emissões decorrentes principalmente do desmatamento e da degradação florestal.
Mas existe uma característica que merece atenção especial.
A metodologia não olha apenas para o carbono que poderá ser removido no futuro.
Ela também valoriza o estoque de carbono existente na floresta, associando a conservação à biodiversidade, aos serviços ecossistêmicos e a cobenefícios relacionados às comunidades e aos recursos hídricos.
Essa abordagem cria uma conexão direta entre certificação de carbono e uma questão econômica central para a conservação brasileira.
Transformar conservação em ativo econômico
Manter uma floresta em pé gera benefícios ambientais que ultrapassam os limites da propriedade.
Mas esses benefícios nem sempre possuem uma tradução econômica capaz de competir com outras alternativas de uso do território.
Esse é um dos grandes desafios da conservação.
Uma metodologia de carbono voltada especificamente para florestas nativas privadas pode contribuir para transformar parte desse valor ambiental em um ativo econômico mensurável, monitorável e comercializável.
Nesse sentido, o crédito de carbono não precisa ser entendido apenas como uma forma de compensação.
Ele também pode funcionar como instrumento de financiamento da conservação.
Essa perspectiva é especialmente relevante para o Brasil, onde propriedades privadas possuem papel fundamental na conservação da vegetação nativa.
Uma metodologia não existe isoladamente
Outro aspecto importante da LCS003 é que a metodologia não se resume à definição de uma equação para quantificar carbono.
A estrutura publicada pela LuxCS inclui documentos específicos para desenvolvedores e auditorias de terceira parte, análise de viabilidade, validação, elaboração do projeto, verificação e termos relacionados à dupla contagem e ao compromisso de conservação.
Esse desenho mostra uma preocupação com a construção de um processo completo de certificação.
Também merece destaque a participação de auditoria independente de terceira parte nos projetos.
Nos projetos divulgados pela própria LuxCS, como Fazenda Santana e Fazenda Lote 20, no Pará, o processo inclui desenvolvedor de projeto e auditoria de terceira parte, além da análise de viabilidade e validação.
A proposta, portanto, não é simplesmente criar mais um registro de créditos.
É estruturar uma metodologia e um processo capazes de transformar uma determinada realidade ambiental em um ativo climático certificado.
O futuro não precisa ter uma única certificadora
Talvez essa seja a principal mudança que o mercado esteja começando a experimentar.
O futuro não precisa ser uma disputa para descobrir quem será a próxima Verra.
Também não precisa significar o desaparecimento dos padrões que construíram o mercado.
O que está surgindo é algo potencialmente mais interessante: um mercado no qual diferentes padrões podem coexistir e competir pela capacidade de oferecer a melhor estrutura para diferentes tipos de projetos.
Isometric mostra como tecnologia e ciência podem ser incorporadas a novas arquiteturas de certificação.
Puro.earth demonstra como a especialização em remoções duráveis pode criar um mercado próprio.
Cercarbono mostra que padrões regionais também podem alcançar reconhecimento internacional.
E a LuxCS representa uma iniciativa brasileira que busca desenvolver metodologias a partir de uma realidade específica: a conservação de florestas nativas em propriedades privadas brasileiras.
Essa diversidade pode ser positiva para o mercado.
Porque, no final, o objetivo não deveria ser encontrar uma certificadora que sirva para tudo.
O objetivo deveria ser construir um ecossistema no qual diferentes soluções climáticas possam encontrar a estrutura de certificação mais adequada à sua natureza, à sua geografia e ao impacto que pretendem gerar.
A visão da 369 EcoCredits
Na 369 EcoCredits, entendemos essa transformação como uma evolução natural do mercado de carbono.
A existência de alternativas amplia as possibilidades para desenvolvedores e compradores, mas também aumenta a importância da análise técnica.
Não basta conhecer o nome de uma certificadora.
É necessário compreender a metodologia, o processo de certificação, os critérios de quantificação, monitoramento e verificação, os direitos associados ao ativo e a aderência do padrão à natureza do projeto.
É essa análise que permite avaliar se determinado crédito faz sentido para determinado comprador.
E é justamente por isso que a diversificação do mercado é relevante.
Um mercado com mais alternativas exige mais conhecimento, mas também oferece mais possibilidades.
À medida que novas formas de remoção, conservação e redução de emissões entram no mercado, a tendência é que também cresça a diversidade de padrões capazes de certificá-las.
O mercado de carbono, portanto, pode estar entrando em uma nova fase.
Uma fase em que a pergunta mais importante não será mais apenas quem certifica?
Mas sim:
qual estrutura de certificação melhor traduz o valor climático e ambiental de cada projeto?!