O papel do carbono na construção de uma economia da conservação
Uma reportagem publicada pela Reuters em agosto de 2026 trouxe, a partir de um caso apresentado durante a London Climate Action Week 2026, uma perspectiva especialmente relevante para o debate internacional sobre financiamento climático: como criar mecanismos econômicos capazes de tornar a conservação da natureza uma decisão financeiramente viável para quem possui e administra essas áreas.
O caso apresentado no evento foi o de Lori Melton, proprietária de uma área florestal no Arkansas, nos Estados Unidos, que decidiu conservar a propriedade de sua família e encontrou nos créditos de carbono um mecanismo capaz de contribuir para essa decisão.
A protagonista da reportagem é Lori Melton, proprietária de uma área florestal no Arkansas, nos Estados Unidos, herdada de seu pai. Para Lori, a propriedade representa muito mais do que um ativo imobiliário. É parte do patrimônio e da história de sua família.
Segundo a Reuters, Lori recebe regularmente propostas de compra de sua propriedade, algumas alcançando centenas de milhares de dólares e até valores superiores a US$ 1 milhão. A venda poderia representar uma importante alternativa financeira para sua família.
Ainda assim, ela escolheu manter a área conservada.
E para sustentar sua decisão, Lori buscou uma solução alternativa às convencionais: incluir a propriedade em um programa de créditos de carbono desenvolvido pela NativState, empresa liderada por Stuart Allen, criando uma fonte de receita que proporcionou à proprietária maior segurança financeira para conservar a propriedade sem precisar vendê-la.
O caso de Lori leva a uma pergunta que deveria estar no centro da discussão sobre financiamento climático:
Quanto vale manter uma floresta em pé?
A conservação também é uma decisão econômica
A história apresentada pela Reuters mostra algo que muitas vezes fica escondido nas discussões sobre conservação.
Uma floresta possui enorme valor ambiental, armazena carbono, conserva biodiversidade, protege recursos hídricos, mantém ecossistemas e presta diversos serviços ambientais.
Mas, para o proprietário da terra, existe também uma dimensão econômica.
Uma área florestal possui alternativas de uso capazes de gerar receitas. Quando conservar representa apenas um custo para o proprietário, enquanto os benefícios ambientais são distribuídos por toda a sociedade, existe um desequilíbrio econômico.
É justamente nesse ponto que o financiamento climático pode exercer uma função estratégica.
A Reuters sintetiza essa ideia ao mostrar que recursos provenientes do financiamento climático podem proporcionar aos proprietários e gestores de áreas naturais a flexibilidade financeira necessária para escolher conservação em vez de conversão.
O caso de Lori demonstra isso de forma concreta.
O carbono não foi utilizado apenas para contabilizar uma tonelada de CO₂, foi utilizado para criar uma alternativa econômica que ajudou uma proprietária a manter a floresta que já possuía.
O carbono pode financiar a floresta que já existe
Essa perspectiva é especialmente importante quando falamos de projetos de conservação de estoques de carbono florestal.
Uma floresta nativa já possui carbono armazenado em sua biomassa.
Esse carbono não precisa ser removido adicionalmente da atmosfera para que sua conservação tenha relevância climática.
A lógica é diferente dos projetos desenvolvidos especificamente para remoção de carbono.
Em uma remoção, o benefício climático está associado à retirada adicional de CO₂ da atmosfera e ao seu armazenamento.
Em um projeto de conservação, o objetivo é manter protegido um estoque de carbono existente, evitando que sua perda resulte em emissões.
Por isso: Conservar carbono não é o mesmo que remover carbono.
E essa distinção não diminui a importância da conservação. Pelo contrário. Ela permite compreender que existem diferentes mecanismos pelos quais uma floresta pode contribuir para a mitigação das mudanças climáticas.
A questão passa a ser quanto carbono existe, qual é o risco de perda desse estoque e quais mecanismos podem contribuir para sua conservação no longo prazo.
O Brasil possui uma base legal para remunerar a conservação
No Brasil, essa discussão possui respaldo na legislação.
O Código Florestal reconhece a conservação e a manutenção dos estoques de carbono entre os serviços ambientais associados às áreas naturais. A legislação também estabelece instrumentos de pagamento e incentivo relacionados à conservação de APP, Reserva Legal e áreas de uso restrito, inclusive.
Esse reconhecimento é importante porque demonstra que a conservação não precisa ser compreendida exclusivamente como uma obrigação ambiental.
Ela também pode ser reconhecida como um serviço ambiental capaz de gerar valor econômico.
A Lei nº 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, avançou nessa direção ao estabelecer que a recomposição, manutenção e conservação de APP, Reserva Legal e áreas de uso restrito são atividades aptas à geração de créditos de carbono, observados os requisitos legais aplicáveis.
A mesma legislação reconhece projetos privados relacionados à conservação dos estoques de carbono florestal e estabelece regras para a titularidade dos créditos gerados em imóveis privados.
Existe, portanto, uma convergência importante entre legislação ambiental, financiamento climático e mercado de carbono.
Conservar pode gerar valor.
Uma metodologia para transformar conservação em ativo climático
É nesse contexto que metodologias voltadas à conservação dos estoques de carbono florestal ganham importância.
A LCS003, desenvolvida pela Lux Carbon Standard, foi estruturada especificamente para projetos de conservação de florestas nativas brasileiras em áreas privadas.
A metodologia estabelece requisitos para demonstrar a adicionalidade do projeto, definir uma linha de base, quantificar os estoques de carbono e realizar o monitoramento periódico durante o período de crédito.
Também estabelece mecanismos de Monitoramento, Reporte e Verificação e prevê auditoria independente por terceira parte antes da emissão dos créditos.
Na prática, essa estrutura cria uma conexão entre a conservação da floresta e o financiamento climático.
O estoque de carbono existente na floresta passa a integrar um projeto climático estruturado, mensurável e verificável, criando uma possibilidade de geração de receita associada à manutenção da conservação.
Essa é uma diferença importante.
Não estamos falando de atribuir ao projeto uma remoção de carbono que não ocorreu.
Estamos falando de criar um mecanismo econômico para manter protegido um estoque de carbono que já existe, dentro de uma estrutura que estabelece as condições necessárias para sua conservação.
Da conservação como custo à conservação como ativo
É justamente nesse ponto que a história de Lori Melton, apresentada pela Reuters, ganha relevância para o Brasil.
O desafio da conservação não é apenas convencer as pessoas de que as florestas são importantes.
Em muitos casos, elas já sabem disso.
O desafio é criar condições econômicas para que essa decisão possa ser mantida diante de outras alternativas.
A Reuters destaca que, para Lori, a receita proveniente do programa de carbono proporcionou a segurança necessária para manter a propriedade da família. A reportagem amplia essa reflexão ao sugerir que pequenos direcionamentos de capital, quando multiplicados por milhares de investidores, poderiam gerar bilhões de dólares por ano para iniciativas de conservação.
Essa lógica é particularmente relevante para países como o Brasil.
Se milhões de hectares de vegetação nativa estão sob domínio privado, a conservação em escala dependerá também da capacidade de criar mecanismos econômicos que beneficiem aqueles que mantêm essas áreas protegidas.
O mercado de carbono pode ser um desses mecanismos.
O Brasil tem uma oportunidade única
O Brasil reúne condições que poucos países possuem.
Temos uma das maiores extensões de florestas tropicais do planeta, grandes áreas de vegetação nativa em propriedades privadas, uma legislação que reconhece serviços ambientais e um mercado de carbono em desenvolvimento.
A oportunidade está em conectar esses elementos.
A conservação precisa gerar valor para quem conserva. O financiamento climático precisa chegar aos territórios onde a conservação efetivamente acontece.
E o mercado precisa criar instrumentos capazes de transformar parte do valor ambiental das florestas em recursos que contribuam para sua permanência.
A visão da 369 EcoCredits
Na 369 EcoCredits, entendemos que o mercado de carbono pode desempenhar uma função muito maior do que simplesmente compensar emissões.
Ele pode contribuir para construir uma economia da conservação, na qual a manutenção da floresta em pé passa a ser também uma atividade economicamente viável.
Nossa atuação está na conexão entre projetos ambientais e mercado, estruturando e comercializando ativos climáticos provenientes de iniciativas de conservação florestal e geração de energia renovável.
Nos projetos de conservação, essa visão é particularmente importante.
O objetivo não é simplesmente transformar carbono em créditos.
É conectar proprietários que conservam seus ativos naturais a empresas e investidores dispostos a direcionar capital para iniciativas climáticas capazes de gerar benefícios ambientais de longo prazo.
A história de Lori Melton mostra que essa discussão já está acontecendo fora do Brasil.
Uma proprietária recebeu propostas de milhões de dólares para vender sua floresta, mas encontrou no financiamento climático uma alternativa que contribuiu para mantê-la protegida.
No Brasil, temos uma oportunidade ainda maior.
Temos as florestas, temos os proprietários, temos a legislação e temos um mercado capaz de conectar capital à conservação.
O próximo passo é fazer com que essa conexão seja cada vez mais efetiva.
Porque, no fim, a pergunta não é apenas quanto vale uma tonelada de carbono.
A pergunta é quanto vale manter uma floresta em pé.
E, se queremos que milhões de hectares permaneçam conservados, essa resposta precisa também ser econômica.