Do volume ao valor: o próximo desafio do mercado de carbono brasileiro

O Brasil já demonstrou que consegue gerar créditos de carbono em escala. O próximo desafio é transformar essa oferta em ativos climáticos capazes de atrair capital de longo prazo e capturar maior valor no mercado internacional.

Durante anos, a posição do Brasil no mercado voluntário de carbono esteve associada principalmente a uma característica: escala. O país possui uma das maiores extensões de cobertura florestal do mundo, elevado potencial de mitigação e uma grande quantidade de projetos de carbono. Essa combinação fez do Brasil uma das principais fontes de créditos para o mercado voluntário global.

Mas escala, por si só, não determina valor.

Uma análise recente da Sylvera, apresentada no evento From Volume to Value: Brazil’s Long Term Carbon Opportunity, realizado em São Paulo neste mês de agosto de 2026, coloca essa questão no centro da discussão sobre o futuro do mercado brasileiro. A próxima etapa não será apenas ampliar a quantidade de créditos produzidos, mas desenvolver projetos capazes de atrair compradores e investidores dispostos a assumir compromissos de longo prazo.

 

O Brasil já possui escala

Os números ajudam a dimensionar essa oportunidade.

Segundo dados apresentados pela Sylvera, o Brasil possui 148 projetos REDD+ que já emitiram 97,1 milhões de créditos. O segmento de hidrelétricas representa outros 42 milhões de créditos, provenientes de 91 projetos, enquanto projetos de metano de aterros sanitários somam 77,6 milhões de créditos em 82 projetos.

Quando considerados Brasil, Colômbia e Peru, os três países já alcançaram aproximadamente 280 milhões de créditos REDD+ emitidos, formando a maior concentração regional desse tipo de projeto no mercado voluntário.

Esses números mostram que o principal desafio brasileiro não é necessariamente produzir oferta.

O Brasil já demonstrou capacidade de gerar créditos em grande escala.

A questão agora é diferente: como transformar essa oferta em ativos capazes de atrair capital, contratos de longo prazo e maior valor econômico?

 

O mercado começa a diferenciar os projetos

Essa mudança já pode ser observada nos preços.

A análise da Sylvera sobre o mercado brasileiro demonstra diferenças significativas entre categorias de projetos. Em seu levantamento, créditos de ARR apresentaram preço médio de US$ 38,67, enquanto créditos de REDD+ apresentaram preço médio de US$ 5,54.

Essa diferença não significa que uma determinada categoria seja automaticamente melhor do que outra.

O que ela demonstra é algo mais importante para o futuro do mercado: uma tonelada de carbono não possui necessariamente o mesmo valor econômico que outra tonelada de carbono.

Características do projeto, metodologia, riscos, qualidade percebida, capacidade de entrega e atributos ambientais podem produzir diferenças significativas na disposição do mercado em pagar por determinado ativo.

Essa é uma mudança importante para o Brasil.

Ter uma grande quantidade de créditos disponíveis deixa de ser suficiente.

É preciso demonstrar por que determinados projetos merecem maior confiança e, consequentemente, podem capturar maior valor.

 

De vender créditos para financiar projetos

Essa transformação também aparece na discussão promovida pela Sylvera em São Paulo.

O conceito de “From Volume to Value” representa justamente essa mudança de perspectiva.

O mercado começa a olhar não apenas para a quantidade de créditos que um projeto poderá gerar, mas para sua capacidade de atrair financiamento e estabelecer relações comerciais de longo prazo.

Segundo a Sylvera, US$ 12,3 bilhões em contratos futuros de compra de créditos foram anunciados em 2025, em sua maioria com duração de dez anos ou mais e com preços superiores aos observados no mercado spot.

Esse dado é particularmente relevante.

Contratos de longo prazo reduzem parte da incerteza para os desenvolvedores e, ao mesmo tempo, oferecem aos compradores maior previsibilidade sobre o acesso futuro a créditos.

O carbono deixa, portanto, de ser analisado apenas como uma mercadoria disponível para aquisição imediata.

Passa também a ser considerado como um ativo que pode ser objeto de relações comerciais e financeiras de longo prazo.

 

Qualidade passa a ser uma variável econômica

Essa transformação não acontece isoladamente.

O State and Trends of Carbon Pricing 2026, publicado pelo Banco Mundial, mostra que os instrumentos de precificação de carbono já cobrem aproximadamente 29% das emissões globais de gases de efeito estufa. O relatório também aponta que as emissões de créditos no mercado de carbono cresceram 8% entre 2024 e 2025 e destaca a existência de diferenciação de preços entre categorias e níveis de qualidade dos projetos.

Isso ajuda a compreender uma questão fundamental.

Requisitos como adicionalidade, definição de baseline, monitoramento, verificação independente, permanência, rastreabilidade e segurança jurídica não devem ser vistos apenas como etapas necessárias para a certificação.

Eles também contribuem para determinar o risco percebido e o valor econômico do ativo.

Quanto maior a confiança na capacidade de um projeto entregar os benefícios climáticos prometidos, menor tende a ser a incerteza associada à aquisição daquele ativo.

 

Uma oportunidade para a conservação florestal em áreas privadas

Essa transformação é particularmente relevante para projetos de conservação florestal desenvolvidos em propriedades privadas.

O Brasil possui uma enorme oportunidade de mobilizar capital privado para conservação de seus estoques de carbono. Entretanto, transformar uma área florestal em um ativo climático de longo prazo exige muito mais do que demonstrar a existência da floresta.

É necessário estabelecer claramente os direitos sobre a área, demonstrar a adicionalidade do projeto, definir uma metodologia tecnicamente consistente, monitorar os estoques de carbono, realizar verificações independentes e manter mecanismos capazes de reduzir riscos de reversão durante o período de crédito.

A segurança jurídica merece atenção especial.

Nos últimos anos, projetos de geração de créditos florestais passaram a enfrentar questionamentos relacionados à titularidade das áreas, aos direitos sobre o carbono e à legitimidade de sua utilização para geração de créditos.

Esse tipo de risco afeta diretamente a confiança do comprador.

Por isso, metodologias e padrões de certificação que incorporam mecanismos mais rigorosos de avaliação jurídica podem contribuir para diferenciar projetos e reduzir incertezas para o mercado.

No caso da Lux Carbon Standard, por exemplo, a comprovação dos direitos sobre a área constitui uma condição relevante para o avanço do processo de certificação, enquanto a validação e a verificação são realizadas por auditoria independente de terceira parte.

Esse tipo de estrutura responde diretamente a uma necessidade que tende a ganhar importância à medida que o mercado se torna mais sofisticado.

 

O próximo estágio do mercado brasileiro

O Brasil não precisa mais provar que consegue produzir créditos de carbono, Os números já demonstram isso.

O desafio agora é transformar sua capacidade de geração em ativos climáticos de maior valor, capazes de atrair capital de longo prazo e estabelecer relações comerciais mais sofisticadas com compradores internacionais.

Essa mudança também exige uma transformação na forma como os próprios projetos são desenvolvidos.

A estruturação jurídica, a escolha metodológica, a qualidade do MRV, a governança, a capacidade de entrega e a transparência deixam de ser aspectos secundários.

Passam a fazer parte da própria construção de valor do ativo.

 

O papel da 369 EcoCredits

Na 369 EcoCredits, entendemos que essa transformação representa uma oportunidade importante para o Brasil e também orienta nossa atuação no mercado.

Nosso objetivo não é simplesmente colocar mais créditos no mercado.

Buscamos conectar compradores a ativos climáticos estruturados para atender às exigências de um mercado internacional cada vez mais sofisticado, considerando aspectos como integridade, rastreabilidade, segurança jurídica, consistência metodológica e perspectiva de longo prazo.

Nosso portfólio reúne projetos de conservação florestal de alta integridade nos biomas Amazônia e Mata Atlântica, além de créditos associados à geração de energia renovável.

O Brasil já demonstrou que pode produzir carbono em escala, o próximo capítulo será demonstrar que também pode transformar essa escala em valor.

E, nesse processo, os projetos capazes de oferecer maior confiança tendem a ocupar uma posição cada vez mais relevante no mercado global.

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